A Seleção

Capítulo 1 - Bem-vindo à Graveport




Mac estava deitado em um sofá de hotel, surfando pelos canais e aproveitando o último momento de descanso que lhe restava.
Sua estadia no hotel venceria na manhã seguinte e, infelizmente, não teria dinheiro para conseguir outro que oferecesse o mesmo conforto.
Nos últimos meses, já havia passado por vários tipos de hotéis por mais de 7 cidades. A polícia ainda procurava-o, e com sua ficha, não conseguiria mais nenhum emprego. Mac já havia tentado falsificar sua identidade, mas ainda sentia arriscar-se demais enviando currículos pelas empresas. Sua verdadeira paixão era trabalhar com a polícia, mas sua vida profissional foi por água abaixo junto de uma acusação falsa.

Estava quase cochilando novamente quando sentiu o celular virar sobre o vidro da mesa. Tateou em sua volta, ainda de olhos semi-fechados e atendeu o celular.

- Alô?
- Sr. Mac Redbrook?

Mac perdeu as palavras. Havia, há duas semanas atrás, falsificado sua identidade e passado a chamar Ian Fields.

- Desculpe, não queríamos incomodá-lo. Trabalho no gabinete da prefeita de Graveport e, em nome da prefeita, ofereço-lhe um emprego.
- Graveport? Nunca ouvi falar.
- Mesmo? Somos uma cidade bem pequena. Enfim, precisamos de sua resposta imediatamente.
- Não estou interessado.

O homem do outro lado da linha deu uma pausa.

- Sugiro que pondere bastante sobre a oferta. Estamos oferecendo bem mais que um salário. Limparemos seu nome e provaremos sua inocência no caso em que foi acusado. Tem exatamente três minutos para dar-nos uma resposta concreta. Caso contrário, buscaremos outra pessoa para exercer o cargo.
- Por que eu? Existem vários outros.
- Precisamos de alguém com experiência. E seu tempo está passando.

- Eu aceito!
- Ótimo, Mac. Enviaremos um carro para buscá-lo em sua...
- Não, obrigado. Eu usarei um táxi.
- Escolha perfeita. Porém, o taxista provavelmente não conhecerá o caminho até nossa pequena cidade. Além disso, a distância de sua atual cidade e Graveport é bem longa. Imagino que não queira gastar tanto.
- Eu insisto.
- Muito bem... Peça para que deixem-o nesse endereço. - o homem deu a descrição de um local próximo ao haras que ficava à 250 quilômetros da cidade. Não era exatamente longe.



***



O táxi havia deixado Mac em um lugar deserto, sem qualquer sinal de civilização. Poderia ser apenas paranoia, mas desconfiava que fosse uma clássica armadilha da polícia.

Um carro preto reluzente surge na ponta da estrada e corre em alta velocidade. Ao localizar Mac, o carro diminui a velocidade.
O motorista fez um sinal, pedindo para que entrasse no carro.

Indo no banco de trás, Mac tirou a arma e apontou para a cabeça do motorista e ameaçou-o.

- Eu tenho uma arma carregada de balas. Posso atirar em sua cabeça em qualquer segundo, então sugiro que você apenas leve-me até Graveport, sem qualquer armadilha.

- Vejo que você realmente tem experiencia, Mac. - a voz era a mesma do telefone - Prazer, meu nome é Jake Archibald, e trabalho com a prefeita em seu gabinete.

Mac abaixou a arma.

- Ótimo! Apenas leve-me até lá.



***





- Seja bem-vindo à Graveport. Essa é a prefeitura.
- Exatamente que tipo de emprego está me oferecendo?
- Você aceitou um emprego que desconhece?

Mac riu ironicamente.

Ambos desceram do carro. Mac ainda não havia abandonado a arma, mesmo tendo a certeza de que aquilo não se parecia com uma armadilha. Atravessaram o estacionamento e foram até a frente do prédio, decorada com árvores e fontes jorrando água. Era realmente um ótimo prédio. Com seus três andares e uma cúpula dourada, o prédio era inteiramente feito de pedra. Próximo à escada de entrada, estava uma mulher de casaco avermelhado esperando por alguém. Jake pediu para que fosse até ela.


- Boa tarde, Sr. Redbrook. Sou a prefeita de Graveport, Mellie Abrams.
- Prazer em conhece-la,
- O prazer é meu. Provavelmente, já deve imaginar que estamos lhe oferecendo um emprego similar ao seu anterior.
- Sim.
- Estamos oferecendo um cargo de grande responsabilidade. Como já havia dado a certeza por telefone, não poderá mais recusá-lo. Desde já, exercerá a função de meu segurança pessoal.

Mac hesitou um pouco e deixou escapar uma risada de sarcasmo. Mellie pareceu notar.

- Acho que não tive a oportunidade de me explicar. A cidade está enfrentando alguns prolemas bastante sérios que precisam ser resolvidos. Porém, tais problemas levam tempo, porém a população da cidade parece não entender. Temos um povo bem radical vivendo aqui, e a última prefeita foi agredida em público. Há 8 anos atrás, outro prefeito foi encontrado morto. Se insatisfeitos, a população se revolta e comete atrocidades insanas. Preciso de ajuda.
- Entendo, Sra. Abrams. Eu exercerei o cargo, mas ainda espero que cumpra com suas promessas de provar minha inocência.
- Claro, Mac. E, antes que possa esquecer, tenho que lhe entregar isso. - Mellie tira do bolso um cheque já preenchido e um par de chaves. - Aqui está seu salário adiantado e a chave de sua casa. Enquanto exercer esse emprego, tais privilégios permanecerão sendo seus.

Concordando, Mac cumprimenta cordialmente Mellie, que dispensou-o dando o endereço da casa.



***




Seguindo as instruções da prefeita, Mac chega em sua nova casa. Era realmente confortável, localizada na praia e com piscina. Aparentemente, era mobiliada.

Após a tensão da viagem, Mac tomou um longo banho e se preparou para dormir.


***




Em frente a prefeitura, Mellie e Jake se encontravam sentados em um banco.

- Contratá-lo não resolverá nossos problemas, Mellie!
- A escolha foi minha, Jake. Não tente questioná-la.
- Sou seu conselheiro e sou pago para evitar que você faça besteiras.
- Eu sou a prefeita, a imagem de maior influência política na cidade. Não quer fazer nenhuma disputa de poder agora, quer?

- Só estou dizendo que você deveria ter uma solução alternativa para essa situação.
- Já disse que não preciso. Sei exatamente o que estou fazendo!


***



Grace caminhava gloriosamente pela rua, sorrindo como uma vitoriosa.
- Estamos tão próximos! - dizia para si mesma.
Agora subindo as escadas da casa do novo cão de guarda da prefeita, Grace tirou uma chave do bolso e abriu a porta.
Em passos silenciosos, caminhou pelo chão da casa e entrou no quarto de Mac.

Parada no centro do quarto, observou-o dormir. Escandalosamente, Grace levantou seus braços e bateu palmas, decidida de que devia acordá-lo.


Assustado, levantou-se da cama e pegou a arma que havia escondido embaixo da cama, apontando-a para Grace.

- Ei! Mantenha a calma. Não quero machucar você querido. Quero apenas conversar.
- Quem é você? Como entrou aqui?

Ainda estava confuso ao ver uma mulher que acabara de invadir seu quarto sem dar qualquer sinal.

- As duas perguntas são desnecessárias. Vista alguma coisa. Farei-lhe perguntar sobre coisas bem mais interessantes.

Mac resolveu não questionar. Tirou do armário algumas peças de roupa e se vestiu.
Levando Grace até a sala, pediu para que se sentasse e começasse a explicar o motivo da invasão.


- Primeiramente, meu nome não interessa à ninguém. Estou aqui para alertá-lo.
- Alertar?
- Já se perguntou o porquê da prefeita ter chamado justamente você? Tantos seguranças no mundo... Muita gente recém-formada, muitos policiais existentes em Graveport... Por que justamente você?

- Ela precisava de alguém experiente. 

Grace riu.

- Essa foi a explicação dela? A prefeita realmente está evoluindo.
- Por favor, vá direto ao ponto,
- A cidade está escondendo segredos de você. Três grandes e podres segredos. - riu novamente.
- E você pode me contar quais?
- Claro, querido. O primeiro segredo vai ser difícil de contar...
- Estou ouvindo.

Grace respirou fundo. 

- A população está revoltada por um único motivo. Esse motivo vem atormentando-nos há anos, e também explica porque a cidade não é conhecida por ninguém. Há 27 anos atrás, 5 pessoas aleatórias, sem qualquer ligação, desapareceram. No ano seguinte, outras cinco desapareceram, E durante esses 27 anos, na mesma data, cinco pessoas desaparecem estranhamente.
- Quer que eu acredite nisso?
- Não. Eu entendo o motivo de você duvidar. É realmente difícil ter uma vida normal, sem acontecimentos sobrenaturais... E então, de repente, sua vida muda totalmente e você tem que conviver com algo assim.
- Conversarei com a prefeita amanhã.

- A data está se aproximando. Será daqui há 10 dias... Os moradores estão enlouquecendo e a prefeita não consegue conter a pressão... - Grace perde o controle começa a aumentar do tom de voz, apertando fortemente o braço de Mac.
- Por favor, saia!

Mac levantou-se e abriu a porta para Grace.



Estando agora fora da casa de Mac, Grace dá um longo sorriso malicioso.

- Ele ainda vai acreditar. Não tem escolha.

***




No dia seguinte, em frente à prefeitura, uma multidão enfurecida reclamava e questionava a prefeita, que tentava dar as respostas á tantas perguntas.



Victoria estava à frente do movimento. Responsável pela maioria das perguntas, ousava cada vez mais à questionar o trabalho da prefeita.

- Sra. Prefeita. Nós, o povo de Graveport exigimos respostas sobre o seus atos contra a maldição. Lembramos claramente que, em seus discursos de eleição, prometia a segurança de todos.
- Os projetos são confidenciais, Victoria. Você não tem o direito de exigir nenhum dado.

- Realmente, não tenho o direito de exigir nada. Mas o povo que elegeu-lhe como prefeita tem sim a possibilidade de saber.

- Prefeita Mellie. - uma voz no fundo gritava - A data se aproxima! Como teremos certeza de que nenhum de nós poderá ser levado?

A pergunta causou grande alvoroço no povo, que começou a perguntar e questionar novamente, dando início à um barulho que poderia ser ouvido até mesmo dentro do gabinete.


Nesse momento, Mac chega e leva a prefeita para o gabinete.


- Chegou atrasado e me deve explicações!
- Na verdade, Mellie, você quem me deve explicações. A maldição é verdadeira?

Mellie pensou que esconderia a verdade por mais tempo.

- Sim, Mac. A maldição é verdadeira. Todo ano, na mesma data, cinco pessoas morrem sem qualquer explicação. Aparentemente, a morte é bem mais dolorosa do que o normal. Quando aproxima-se o dia, todos ficamos alvoroçados e com medo. A população exige uma medida da prefeita para dar fim à isso. - Mellie começa a chorar - Sou um ser humano comum! Não posso quebrar uma maldição. Usei as tecnologias mais avançadas e os profissionais mais caros que podia encontrar, porém nada resolve.

- As pessoas morrem? Como?
- Não sabemos. É um mistério. Houve um único caso em que encontraram litros de sangue na casa de um homem solitário. Isso fez com que imaginassem que a morte pudesse ser realmente dolorosa.

- Não pode ser alguém simplesmente matando pessoas? O sobrenatural não existe, Deve haver alguma explicação. 

- Infelizmente não. Há uma parte da maldição que, para muitos é considerada a mais cruel. Um dos anteriormente mortos retorna para atormentar a cidade. Não sabemos de que forma. E esse mesmo é responsável por escolher uma pessoa qualquer para levar. Houveram relatos de assombrações, fantasmas e outros seres ficaram atormentando alguns moradores, mas nisso eu particularmente não acredito. Porém, infelizmente, a maldição em si é real, e para muitos, ainda tem fatos não explicados.

- Eu simplesmente não consigo acreditar!
- Eu também não conseguia! Com essa mesma mentalidade, eu me elegi como prefeita, pensando exatamente como você. Mas no meu primeiro ano, mudei totalmente minha ideia. O que eu vi foi deplorável.

- O que você viu?

- A conversa está encerrada. Eu vou passar o resto da tarde no meu gabinete, então... Se quiser o resto do dia para descansar...
- Não. Eu ficarei aqui, no caso de algum outro tumulto.


***



Victoria e Lucius estavam parados em frente ao jardim da prefeitura.

- Um dia, esse gabinete será seu, Vic.
- Claro. Num dia bem próximo. A maldição está chegando, e a vadia da prefeita não tomou providência alguma. Em breve, todos saberão a verdade.
- Belo plano.
- Sim. Porém, eu preciso viver o suficiente para tomar seu lugar. A maldição não pode me atingir, Lucius. O que devo fazer?
- Nisso, eu não posso te ajudar.


- Talvez possa. Eu sei exatamente como.


***

Já era noite quando Mac deixou o gabinete da prefeita. Saiu pelos fundos e seguiu até o estacionamento, onde deixou seu carro alugado.



Grace estava do outro lado, apontando uma arma para sua cabeça.
- Parado aí, bonitinho.


***



Sem abaixar a arma, Grace foi junto a Mac até sua casa. Ao entrar, pediu para que se sentasse e, ainda com a arma apontada, ofereceu-lhe mais uma informação.

- Pronto para o segundo segredo?

Mac acenou com a cabeça. Desarmado, sabia que não podia discordar de alguém com uma arma na mão.

- OK. Estou com a arma para me assegurar que não tomara nenhuma atitude precipitada. Esse segredo pode ser chocante.
- Então me conte.
- Faltam praticamente nove dias. O relógio começou a girar. Estamos todos contando os dias, e não existe volta agora.
- O que quer dizer?
- Estando dentro da cidade no período da maldição, todos tornam-se impossibilitados de sair. Você agora é um nativo de Graveport,
- Como assim? Eu...
- Exatamente! Você não poderá sair mais da cidade de Graveport. Você agora vive aqui. Por hipótese alguma poderá cruzar os limites.
- O que acontece se eu cruzar?
- Você simplesmente não pode! Ninguém nunca tentou.

Mac entrou em pânico.

- Mac, agora tenho que contar-lhe o segredo mais importante. O terceiro segredo.


Ambos ouviram uma sirene soar fora da casa de Mac.

Dois policias entraram e levaram Grace para a viatura,

- Recebemos uma denúncia anônima. Alguém viu Grace com a arma entrar em sua casa. Levaremos-a para a delegacia.


O motorista levou Grace na viatura até a delegacia, enquanto o outro ficou para interrogar Mac sobre o que havia ocorrido. Parece que o 3° teria de esperar. - pensou Mac, vendo Grace sendo presa.



***


Distante da casa de Mac, uma pessoa se encontrava parada em frente à um farol.
A noite estava em calada e, naquele momento, podiam ser ouvidos os grilos e o vento batendo nas folhas. Naquela mesma hora, um estrondo quebrou o silêncio.

Dois tiros foram ouvidos.


***

Capítulo 2 - Passado e presente:

A manhã estava calma na cidade de Graveport. No mausoléu do cemitério, encontravam-se poucas pessoas para o velório de Lucius Acker, que morrera com um tiro no rosto na noite passada.


O silêncio incomum apenas acentuava o clima pesado daquele ambiente. Mellie e Mac ficaram impressionados com  o estado de Victoria. Vestida de preto, a mulher estava olhando fixamente para o caixão aberto, com uma expressão de infelicidade evidente.
- Ela realmente não está bem - cochichou Mellie.
- Era de se esperar. Ela perdeu o marido - respondeu Mac.
- Sim, mas Victoria nunca se deixa por vencida. O que vejo ali é uma fracassada.
-Acho que aqui não é o lugar apropriado para falar disso, prefeita.

Mellie levantou-se do banco desconfortável e foi até a porta. Seguiu até o carro e convidou Mac para entrar.
- Vamos almoçar agora. Estou faminta.


O restaurante era bem simples, com algumas mesas de madeira ao ar livre. Ambos se sentaram, e Mac deu início à conversa.
- Você sabe como a maldição teve origem?
- Não, eu não faço a mínima ideia.
- Mas você é a prefeita deveria saber.
- Eu fui eleita a prefeita, mas não nasci prefeita! Não tive fontes de pesquisa, e parece que ninguém sobreviveu para contar bem essa história.
- OK. Entendo... Não se exalte.

A conversa foi interrompida quando o garçom abriu a porta, foi até a mesa deles e serviu dois pratos de espaguete. Mellie abaixou a cabeça e começou a comer, Mac fez o mesmo. Ficaram em silêncio até o fim da refeição, e então voltaram ao trabalho.


***



Victoria ainda estava no cemitério, prestando luto ao falecido marido. Estava extremamente chocada com aquela morte inesperada. Naquele momento de tristeza, várias lembranças passavam pela sua cabeça, mas havia uma delas que se fixara ali.

NO DIA ANTERIOR...


Victoria estava sentada ao lado de seu marido na extensa mesa de madeira de sua sala de jantar. Conversavam sobre as trivialidades do dia de cada um, rindo e aproveitando aquele momento de paz e simplicidade.

Aquilo fora interrompido pela batida na porta de madeira. Victoria ordenou que entrasse, e então uma mulher com um grande chapéu xadrez envolto por uma fita marrom entrou na casa.


- Boa tarde, Victoria. - disse a mulher com a voz pesada.
- Boa tarde. - devolveu secamente.
- Podemos conversar?
- Claro. Sente-se.


A mulher puxou uma cadeira e sentou ao lado de Victoria, lançando um olhar entediado.
- Poderia nos deixar a sós, Lucius. - pediu Victoria.
- Sim. - disse Lucius, levantando-se da cadeira e entrando no escritório.


- Você não devia estar aqui. - falava Victoria, no tom mais leve possível.
- Eu já disse que quero ajudar você.
- Não preciso de sua ajuda.
- Não teria tanta certeza disso. Não quer sobreviver no período da maldição? Então me ouça!
[...]

A conversa prolongou-se durante alguns minutos, enquanto Lucius ouvia pelas paredes toda a conversa. Não podia acreditar no que estava ouvindo.

***

NO TEMPO ATUAL - GABINETE DA PREFEITA:


Mellie estava sentada em sua mesa em frente ao computador desligado. Para uma véspera de maldição, a cidade estava mais calma que o esperado.
Jake abriu as portas brancas do gabinete e entrou.

- Sra. Prefeita? Temos que terminar nossa reunião. - sua voz soava sensual.
- Temos mesmo? - a prefeita retribuiu com um olhar sugestivo.
- Sim.
- Não podemos. Mac está lá fora nos vigiando.
- Não está mais. Acabei de dispensá-lo. - deu alguns passos para frente e se aproximou da prefeita que abrira um largo sorriso.


- Então faremos nossa reunião. Estou pronta para resolver seus problemas, Jake.

A prefeita e seu assistente se abraçaram e terminaram a tarde de forma inapropriada.

***



Mesmo sem entender os motivos de ter sido dispensado naquela tarde, Mac aproveitou seu tempo livre para deixar o gabinete e procurar por respostas. Fora até a delegacia para tentar visitar Grace, mas não obteve sucesso. Um dos guardas negou sua entrada, afirmando que Grace era perigosa e receberia tratamento diferenciado dos demais, sendo impossibilitada de receber visitas.

Agora deixando a delegacia, Mac caminhava vagarosamente, tentando bolar algum plano para entrar na prisão e ver Grace.

***



Grace não esperava terminar daquela maneira. Dentro de uma cela, sentada em uma cama desconfortável. esperava o sono chegar para que pudesse dormir novamente. Sua vida agitada não se comparava à estar presa ali, portanto, mal via o momento de ser solta - se é que algum dia ganharia liberdade.
Usou aqueles momentos de solidão, tentou lembrar-se de alguns momentos importantes de sua vida, mas conseguia pensar apenas em um de seus grandes erros.

HÁ QUATRO ANOS ATRÁS - ÉPOCA DE ELEIÇÕES:


Grace apreciava a vista da cidade enquanto tentava acalmar-se da tensão de eleições. Ela era a pessoa mais confiável de Graveport, e a população amava Grace.
Aproveitando-se disso, Victoria tentou conseguir apoio para candidatura.
- Olá, Grace.
- Victoria.
- Eu sei que você é uma ótima pessoa e, como uma boa cidadã, gostaria de pedir para que me apoiasse nas eleições para a prefeitura.
- Victoria... - Grace suspirou - Você é, sem dúvidas, uma ótima cidadã. Mas não seria uma ótima prefeita. Você ainda não está pronta para dirigir uma cidade, portanto, meu apoio irá para Mellie.

- Mas...
- Você sabe que não está pronta! Irá comandar essa cidade um dia, mas definitivamente não será dessa vez. Talvez na próxima eleição, possamos conversar.
- Ou não! Talvez na próxima, você não esteja viva para apoiar alguém. Eu ganharei o poder de comandar essa cidade, independentemente do que seja necessário fazer. Passar bem!

Grace fechou os olhos e respirou, tentando manter a calma. Ela ainda fará uma grande besteira. Mas isso não será problema meu!"

***

DIAS ATUAIS - DELEGACIA


Era realmente vantajoso para Mac ter experiencia na polícia. Aproveitando-se do horário de troca dos funcionários, conseguiu entrar na sala do delegado e colocar um programa espião no computador.
Agora, teria acesso aos dados da polícia usando o celular.

Correndo para fora da delegacia, a fim de não ser visto, tomou o celular em mãos e ativou o sistema. Os dados da polícia eram todos seu. Poderia agora descobrir quem havia feito a denuncia de Grace.

Para sua surpresa, não era quem esperava.
- Victoria fez a denúncia?

***


 Era realmente uma noite bem escura. Poucas estrelas brilhavam no céu sobre a casa da prefeita. As luzes clareavam as janelas da mansão, enquanto a prefeita andava pela sua sala de jantar.


Em uma lingerie, Mellie se encontrava em pé, mostrando suas longas pernas. Tomava o espumante da taça em pequenos goles, degustando cada gota. Apreciava a solidão com luxo e elegância, mesmo estando à espera de Jake.

A prefeita se animou ao ouvir os passos atravessando a porta. Porém toda sua energia se transformou em medo ao ver a Victoria caminhando com uma arma na mão.
- Boa noite, prefeita.
- Victoria! Agora que está solteira, resolveu abusar das roupas?
- Estou atrapalhando? Está esperando alguém?
- Sim, estou.
- Eu poderia estar esperando alguém em minha casa agora... Mas, infelizmente, esse alguém está morto! E por sua culpa! - Victoria já estava se alterando, subindo cada vez mais o tom de voz.
- Não matei ele, se é o que está pensando.

- Eu não o matei também. E nenhuma outra pessoa teria motivos para matá-lo. Assuma de uma vez seus atos, vadia!
- Eu não matei seu marido. Precisa ouvir mais o quê?
- A verdade! Quero a verdade. Você matou meu Lucius. - os gritos eram abafados pelas lágrimas de Victoria - Eu vou acabar logo com isso.

Levantou a arma em sua mão e apontou para Mellie.


- Últimas palavras, querida?
- Acabe logo com isso, por favor.
- Mas é claro.

Victoria não hesitou em disparar a arma. A bala acertou sua barriga. Disparou de novo para ter certeza.

Dois tiros.

- Morra, vaca! - sussurrou Victoria ao aproximar do corpo debruçado no chão da sala.

Saindo da mansão, abandonou Mellie e não se importou em chamar a emergência.


***



Eram seis horas da manhã, e o dia se iniciara nublado. Mellie estava no hospital recebendo todos os tratamentos possíveis para salvar sua vida.
Enquanto isso, Mac era culpado por não executar direito seu trabalho, pois ninguém sabia que havia sido dispensado na noite do crime.

***


Mais uma vez a multidão se reunia em frente ao jardim da prefeitura, a fim de conseguir informações do substituto da prefeita.
Mac estava sendo julgado pelo povo novamente.
- Para que tanto alvoroço? O substituto da prefeita não será o vice? - perguntava Mac, tentando aliviar a situação.
- Seria, se ele estivesse vivo. Mas, infelizmente, ele morreu anteontem.
- O vice prefeito era o...?
- Lucius. O marido de Victoria.

O choque fora imenso para Mac. Quem substituiria a prefeita naquele momento? Todos precisavam de alguém no comando durante os tempos difíceis provenientes da maldição.
No meio da multidão, Jake anuncia que deveria ser feito uma reunião com o congresso, mas o povo não concordou e pediu a oportunidade de votar naquele momento.

Victoria surgiu no meio do povo e se ofereceu, enquanto a população aclamava a cena.

O povo escolheu Victoria.

- Já que não temos tempo para burocracia, e o povo já fez sua escolha... Victoria sobe ao poder. Parabéns, você agora é a prefeita de Graveport.


***

Capítulo 3 - Nova prefeita, velhos problemas:



Era uma noite bastante iluminada em Graveport. Os prédios do centro encontravam-se de luzes acesas, ofuscadas pelos flashes das câmeras que rodeavam a praça durante o discurso de posse de Victoria.

- Caros cidadãos de Graveport, é tempo de mudanças benéficas à nossa amada cidade. Estamos cada vez mais próximos do dia da maldição que assombra nossas vidas desde muitos anos. Porém, desta vez, estaremos preparados para combate-la e impedir que vidas inocentes sejam levadas pelo mal. Eu, Victoria, a nova prefeita de Graveport, prometo total transparência nos planos de segurança da cidade, e meu gabinete estará acessível à população, possibilitando a integração dos desejos do povo, desde os [...].

O discurso se prolongava durantes horas, enquanto Victoria aproveitava os momentos de poder e atenção que sempre desejara.
Duas horas depois, todo aquele alvoroço se dispersara. As dúvidas do povo foram respondidas com clareza pela nova prefeita, da forma em que a população sempre quis.
A vida da antiga prefeita Mellie estava sendo questionada. Naquele estado em que se encontrava, seria quase impossível manter-se viva. Além disso, com Victoria no poder, Mellie não tinha chances de recuperar seu lugar na prefeitura.


***



Mac tivera sorte em encontrar a delegacia praticamente vazia. Os membros da segurança da cidade se encontravam próximos à prefeita naquele momento e, aproveitando-se disso, Mac determinou-se a libertar Grace da cela.
Com as chaves em mãos, inseriu-as na fechadura e tirou a conhecida detrás das grades.
- Mac?
- Corra, Grace. Não temos muito tempo.
- Só queria dizer obrigada.



Correndo pelos corredores da prisão, Grace e Mac escapavam daquele local sem serem notados.
- Você está salva agora, Grace. Espero que agora possa me contar qual o terceiro segredo.

***



- Nunca acreditei que pudesse entrar aqui de novo - suspirou Grace.
- Não entre em mais nenhuma encrenca, Grace. Não posso salvá-la sempre que aprontar alguma.
- Obrigada, Mac. Não farei nada de errado novamente.
- Poderia me contar qual seria o terceiro segredo?
- Sim. Mas antes, preciso que me prometa confidencialidade. Ninguém pode saber dele, de maneira alguma!
- Claro. Pode confiar em mim.
- Espero que sim. Entenda: esse segredo poderia causar muita confusão se revelado. Portanto, mesmo após ter conhecimento dele, não deverá mudar seu comportamento ou deixar transparecer qualquer opinião ou sentimento sobre ele.
- Já entendi, Grace. Fale logo!

- Existe um meio para sobreviver durante o período da maldição. No momento, apenas duas pessoas além de nós tem conhecimento dele. Para sobreviver a ela, você precisa realizar três tarefas antes do dia da maldição: Matar a pessoa que mais ama, trazer alguém para Graveport e, por fim, jurar lealdade à maldição, impedindo que ela possa ter fim. - Grace respirou fundo e continuou - E, infelizmente, você faz parte disso. A prefeita usou você para garantir a sobrevivência dela ao trazê-lo para cá. A vida dela custará a sua.

- Quer dizer então que aquela vadia me trouxe para cá simplesmente para que ela possa sair intocada pela maldição? Ela merece morrer.
- Mantenha a calma, Mac. O ódio é o combustível para a maldição. Muitos de Graveport acreditam que ela se iniciou com um grande ato de revolta e, através dele, passou a causar sofrimento em vidas inocentes. Para evitar qualquer tragédia, esteja ela relacionada à maldição ou não, tente evitar de todas as formas agir com ódio.

- OK. E quem é a outra pessoa que tem conhecimento dessa maldição?
- Por favor, Mac. É tão óbvio!
- Me fale.
- Estou tão cansada! Se importa se eu for para minha casa agora?
- Está louca? - riu Mac - Se virem você nas ruas, será presa novamente. Ficará aqui por enquanto, até essa maldição passar e os cidadãos acalmarem.
- Não, eu não ficarei...
- Claro que vai. Eu impeço você de sair! - Mac gritava - Não vou me arriscar em tirá-la da prisão quando for capturada outra vez.

- E desde quando você se importa? - Grace riu e deu um beijo no rosto dele. - Vou dormir em sua cama então. Espero que goste do sofá.

***

O amanhecer em Graveport não tinha o mesmo significado em dias próximos à maldição. A manhã era bastante desagradável, mas para Victoria, parecia ter ganho em uma loteria.


Caminhando pelo corredor em direção ao seu gabinete, Vic sorria discretamente enquanto mantinha a postura. Caso a maldição levasse-a, morreria feliz.


- Pode me deixar agora, Jack. Sei o caminho até a cadeira. - Victoria conseguia ser ríspida até mesmo quando emocionada.

Girando a cabeça e observando cada detalhe da sala, ela deliciava o momento de vingança e poder que estaria presente em seus próximos dias. Sim, Mellie. Agora eu estou no controle. - pensava.

Assim que viu a porta ser fechada lentamente atrás de si, Victoria tirou o celular do bolso do casaco e se dirigiu ao canto da sala.


- Qual o problema? - cochichava ao telefone.
- Ela escapou, Victoria. Perdoe-me.
- Seu inútil! Como deixou isso acontecer?
- Senhora, aconteceu quando...
- Cale a boca! Não me fale mais nada. Apenas vá atrás dela e traga-a para mim! - desligou o telefone e atirou-o na parede.

Por sorte, o celular não se quebrou.

***

Não havia sido legal ser dispensado por Victoria em seu primeiro dia de prefeita. Não podia imaginar tendo que trabalhar ao lado dela, sentindo falta de sua ex-amante. Mas mesmo assim, aproveitou o momento para tentar vê-la em seu leito de hospital.



Partia o coração de Jack ter que encarar Mellie deitada em uma cama de hospital através da cortina. O que fora uma mulher forte e decidida um dia, agora era apenas alguém dentro de um hospital qualquer, lutando pela vida. Amava Mellie e não podia negar, e também nunca tivera a oportunidade de dizer. E provavelmente não teria.

***


Victoria estava em sua primeira reunião com os representantes do departamento de segurança da cidade. Podia finalmente colocar seus planos em prática contra a maldição. Apesar de ter subido ao poder apenas por luxúria e sede de atenção, Victoria tinha bons planos para a vida da população.

- Continuando, quero que instale alarmes em toda a prefeitura. Um dia antes da maldição, quero todos os homens possíveis retirando os objetos do prédio, abrindo o maior espaço possível. Quero que consigam espaço também para a comida, que deve ser suficiente para um dia inteiro.
- Providenciaremos tudo, senhora. Mas poderia me explicar novamente o plano?
- Claro. Pretendo manter a população toda alojada dentro do prédio da prefeitura, e monitorar tudo por câmeras. Não sabemos até hoje de que forma são levados os amaldiçoados, portanto ainda há esperanças de conseguir salvá-los. Além disso, poderemos observar cada detalhe para estudar minuciosamente a forma em que funciona a maldição. Assim, nos anos seguintes poderemos buscar uma forma de segurança mais eficiente.

- Ótimo plano.

***

Victoria voltava ao seu gabinete, gloriosa por conseguir realizar seu plano e ser a primeira prefeita que tentou colocar fim à maldição.
Ao abrir a porta, encontrou uma mulher sentada em uma das poltronas da sala.


- Quem é você?
- Victoria! Vejo que um cabelo muda mesmo as pessoas.
- Grace? Como fugiu?
- Primeiro me responda; O que achou da nova cor do meu cabelo?
- Vadia! Como escapou da prisão? - gritava.
- Acho melhor falar baixo, querida. Eu ainda tenho algo que lhe interessa muito!
- Mesmo? Já tenho tudo!
- Não acho. - Grace ria alto - Eu vou te dar o que você precisa, sem qualquer rodeio. Mas antes, preciso que me dê liberdade. Retire a denuncia, ordene com que parem de me seguir, e depois...
- Já disse que não quero ajuda. Segurança! - Victoria gritou uma única vez e sorriu.


Grace caminhou até a porta e saiu.
- Desnecessário! Sei o caminho. Não é isso que costuma dizer?
- Não faço a mínima ideia. Mas posso dizer que você é louca.
- Mesmo?
- Claro. Grace, você é a única cidadã que gostaria de ser levada pela maldição!
- Como sabe disso?
- Sei de muitas coisas. E sei também que deveria aproveitar a oportunidade de sair do meu gabinete, senão chamarei a segurança novamente.


Já no jardim da prefeitura, Grace tirou a peruca, sussurrando xingamentos.


- Vagabunda! Ela ainda vai precisar de mim.

***



Uma explosão acordou toda a cidade. Já passava de meia-noite, o que dava início à um novo dia.
As pessoas saiam desesperadas de duas casas, tentando ver através das luzes que tinham origem do cemitério.


Uma onda de calor, acompanhada da luz desordenada causava desconforto na população. Ninguém sabia exatamente o que era aquilo, mas todos tinham ideia do porquê.


- Começou! Em exatamente um dia, cinco pessoas serão levadas pela maldição. - Grace falava em um misto de felicidade e tristeza.

***


ALGUNS DIAS ANTES:


Lucius não conseguia esquecer da conversa de sua esposa Victoria com a prefeita Mellie. Por que Mellie fora até nossa casa? Estava disfarçada? O que queriam dizer sobre se salvarem? - vários pensamentos passavam pela cabeça de Lucius.
Com a arma na mão, planejava seu suicídio. O que ouvira naquela conversa fora o suficiente para desejar seu fim. Elas haviam sido claras: Victoria mataria Lucius para se salvar da maldição, matando aquele que ela mais ama.

Não poderia dar esse sabor para Victoria de maneira alguma. Já que todos poderiam morrer mesmo, então que ele jamais morra salvando a vida de uma traidora.
Apontando a arma para cima, deu o primeiro tiro.
Em seguida, colocou a arma dentro da boca, e atirou pela segunda vez

Lucius caiu no chão, sem vida. Havia sido o suicídio perfeito.

***

TEMPOS ATUAIS:


- Meu marido teve sorte em morrer antes de presenciar isso. - chorava Victoria.

***

Ano de 1803:


Não era fácil para Grace conviver com aquela situação. Todas as manhãs, acordava em choque ao notar que perdia cada vez mais cabelo. Seus olhos já estavam inchados, enquanto sua pele roxeava-se, levando qualquer esperança de cura para si mesma.
Seria ainda mais difícil esconder aquela doença por mais tempo. Precisava frequentar médicos regularmente, e não saberia por quanto tempo o rei ficaria ser ter o conhecimento da possibilidade de contágio.

Já na sala do médico, Grace ouvia atentamente o homem falar que, infelizmente, não haveria mais nenhuma solução. A doença era desconhecida pelos médicos, e tinha um grande risco de contagiar o povo. Grace era uma ameaça ao povo.
- Não terei outra escolha, a não ser avisar a corte, ordenando sua pena de morte. A doença não pode se espalhar.


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Anoiteceu rapidamente. Grace naquele momento, não via nenhuma perspectiva de vida ou chance de escapar. O cavalo levava o guarda da corte que, sem dúvida alguma, estava ali para capturá-la.
Não conseguia encarar aquela situação como seu fim e, com um impulso, correu contra o guarda e conseguiu fugir. Tinha uma vantajosa distancia entre ela e o homem, e não podia parar agora.

Grace correu pela floresta, tropeçando em galhos e enroscando nas plantas rasteiras.


Havia salvado sua vida ao fugir daquele guarda, mas ainda não podia adiar o inevitável. A dor estava se agravando, e Grace temia não sobreviver o suficiente para realizar seu sonho. Até que a morte os separe fora o que ela mais desejara ouvir em toda sua vida. Entretanto, estava longe de ter essa oportunidade. Encostada em uma pedra, Grace lutava contra as dores ao mesmo tempo que tentava enxergar através da neblina.




Um homem de cabelo volumoso apareceu em meio à neblina, descalço e com as roupas rasgadas.
- Você escapou da morte. Meus parabéns, - dizia.
- Quem é você? - Grace perguntou, mesmo tendo a sensação de conhecê-lo já antes.
- Ninguém. E você?
- Se não pode dizer seu nome, então não vejo o porquê de dizer o meu.
- Talvez possa ser melhor assim.


- Eu estava tentando fugir de um...
- Guarda da corte real - completou o homem - Como disse, você escapou da morte!
- Não importa. Vou morrer logo.
- Acho que não. Você é uma mulher forte, e vai se curar dessa doença estranha.
- Mesmo?
- Sim. Tudo o que você precisa é aprender a usar esse seu ódio da forma correta. Me diga: está com raiva do rei? Dos guardas? Do povo? Todos abandonaram você!
- Estou.
- O que gostaria de fazer com eles nesse momento?
- Torturá-los até a morte. Gostaria de vê-los morrer, um por um, sem qualquer esperança de sobrevivência. Quero sentir o desespero deles ao não poderem fazer nada para se livrarem da morte. Isso é o que quero para eles.
- Você é como eu, Grace.
- Já escapou da morte?
- Sim e não. Mas tenho esse seu mesmo ódio. Podemos nos vingar de todos eles, juntos.
- Juntos?
- Juntos!
- Como?
- Ódio é capaz de fazer coisas imagináveis. Estamos em um local bem peculiar, sabia? Dreams come true. Nightmares too. 
- O que quer dizer? Não sou boa com inglês.
- Concorda com a ideia de vingança? Quer vê-los sofrer, independentemente da forma? Então concorde!
- Concordo. Eu quero vê-los sofrer. Não importa como.
- Será através de magia. Magia muito forte, Grace. Mas no momento, não precisa se preocupar com isso.


Parecia certo e errado ao mesmo tempo. Grace não conseguira controlar o impulso e se atirou sobre ele, dando um longo beijo.


Sentaram-se na grama e se juntaram. A noite fora longa.

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Grace sentia o calor do sol atingir seu rosto. Já havia amanhecido.


Ela podia sentir seu corpo mais forte agora. Sua pele havia recuperado a cor, e todos os hematomas haviam desaparecido. Após levantar-se, foi até um lago e observou seu reflexo.

Estava curada. 

Não sabia para onde o homem desconhecido tinha ido, e não ouvia nada além do forte barulho da cachoeira.

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Pouco se importava com o rei naquele momento. Precisava ver como estava o reino em sua ausência.


Ao chegar, encontrou uma grande estátua da rainha, acompanhada de cinco túmulos. Pessoas haviam morrido noite passada, e não conseguia acreditar que finalmente teria sua vingança. Quanto custaria sua atitude?


Encontrou-se com uma idosa sentada em um banco de madeira, observando o túmulo.
- Vá embora enquanto houver oportunidade. O rei nos abandonou, a rainha está morta, e outras pessoas estão morrendo. O reino já era! - a velha senhora falava com uma voz triste e rouca. - Não sabemos como eles morreram, mas isso acabou não só com essas pobres cinco pessoas. Acho melhor sair para procurar um novo lugar para morar. Faça o mesmo, garota,
- Obrigado pela dica, senhora. Mas eu não vou sair. Esse lugar é meu lugar!


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TEMPOS ATUAIS:


Grace relembrava o início de sua maldita tortura. Haviam se passado mais de 200 anos, porém ela ainda sofria as consequências de suas atitudes precipitadas. Arrependimento não dará fim ao meu sofrimento. Preciso acabar com a maldição de vez.

***



Victoria ficara surpresa com a aparição de Grace em seu gabinete. Ele sempre chegara sem avisar, e aquilo já estava se tornando incomodo.
- O que quer dessa vez, Grace?
- Propor algo.
- Mesmo? Não quero acordos com você.
- Mas vai querer. O que tenho é valioso. E em troca, peço-lhe uma coisa bastante simples.
- Diga logo.
- Vou te contar tudo que sei sobre a maldição, e em troca, me prometerá que cuidará bem dessa cidade.
- Eu sou a prefeita Victoria. Não faço meu trabalho errado.
- Ótimo. Então lide da melhor maneira com essas informações: Eu criei a maldição. Todos os anos, cinco pessoas são levadas embora por ela, e em troca, eu consigo imortalidade. Possuo na verdade 251 anos. Porém não estou mais disposta à carregar a cidade em minhas mãos, preciso de paz, descanso... Enfim, uma das cinco pessoas escolhidas torna-se um tipo de alma viva, que nos cerca durante um ano inteiro, tentando levar outra pessoa à tomar medidas drásticas para manter a maldição. Quando a maldição foi criada, me relacionei com um deles. Isso destruiu minha vida, e me arrependo amargamente de tudo que fiz. Infelizmente, não sei como quebrar a maldição, porém ainda tenho algumas boas informações: Não confie no Jake; não mate mais ninguém; mantenha distância do cemitério durante os dias da maldição; e principalmente, tome muito cuidado amanhã. Execute seu plano conforme foi combinado. Você conseguirá sobreviver, eu acho. Só quero que quando isso tudo acabar, todos vocês me perdoem. - uma lágrima escorreu o rosto.
- Grace... Obrigada. - Victoria estendeu as mãos e deu um abraço. - E não faça nenhuma besteira.

Victoria esqueceu por um momento todos os sentimentos de vingança e ódio por Mellie, Grace e todos os outros. Haviam confiado à ela um segredo único, e isso tornava-a especial - pelo menos para si mesma.

***



Fora aqui que tudo começara. Grace, há mais de duzentos anos atrás, encontrou sua cura, paixão e vingança naquele mesmo lugar que, inacreditavelmente, agora tornou-se um cemitério. Agora, ela estava pronta para tomar a decisão que devia ter tomado antes de dar início à maldição.
Nunca tente fugir da morte, Grace. Espero que tenha aprendido a lição.



- Adeus! - disse Grace, chorando.
Deu um pequeno salto e se atirou contra a cachoeira. Com aquela queda, suas chances de sobrevivência eram quase inexistentes. Mesmo que não machucasse a ponto de morrer, iria se afogar.
Era o fim de mais uma vida.

***


CONTINUA - ÚLTIMO CAPÍTULO EM 2 SEMANAS.