HISTÓRIA: Kill Me, Please


Enfrentar um fim de relacionamento nunca foi fácil, mas para Elizabeth, parecia uma tortura. Sua gerência na grife estava longe de tirá-la da falência, e a descoberta de um problema sério nos rins não era uma forma de fazê-la sentir se bem.
Nessas horas, é instinto do ser humano tomar suas decisões precipitadas, e a decisão de Elizabeth tiraria a própria vida. Pelo menos era o que achava.

Com uma faca de precisão, cortou seus pulsos pela segunda vez naquela semana. Nas tentativas anteriores jurava a si mesma que não estava preparada para morrer, mas agora não via outra saída. Cravando a faca em seu pulso esquerdo, marcou um pequeno corte em vertical que logo começou a jorrar sangue. Sem forças, largou a faca no chão e tentou se levantar instintivamente enquanto o tapete se manchava de vermelho. suas tentativas de sair do chão apenas pioraram a situação, derrubando a mesa, panos e talheres. De pé, perdeu o controle e caiu novamente no chão. Antes de bater sua cabeça, a ultima coisa que ouviu fora a porta da sala se abrir.
E então, tudo se apagou.


- Bom dia, Beth.
- O que aconteceu? Onde estou?
- Você, sua vadia, tentou suicídio de novo, e quase acertou dessa vez. Quando cheguei, você havia cortado seus pulsou e derrubado metade da sua casa. Você é tão desastrada e filha da mãe que chegou a...
- O quê?
- Nada. O importante é que está bem agora. Você chegou a perder muito sangue, e bateu a cabeça no chão com força, chocando violentamente seu cérebro contra a parte de trás do crânio. Isso resultará no que eles chamam de amnésia. É possível que você se lembre de alguns detalhes após um tempo, mas por enquanto é melhor nem se esforçar.
- Tá... Mas o que aconteceu depois?! Por que ainda estou viva?
- Eu... Eu salvei você.
- Então me mate. Quero estar morta! Eu não pedi sua ajuda!
- Não seja mal agradecida, Elizabeth. Graças a mim, você terá uma segunda chance. Além disso, tornei-me sua responsável agora, terei que cuidar de você durante algumas semanas, e não vou deixar você fazer nenhuma merda nesse meio tempo, entendeu?!




- Para onde está me levando, Bianca?
- Para as montanhas, Beth. Tenho um trabalho importante pra fazer e não posso deixá-la sozinha.
- O que fará na montanha? Não há nada de interessante lá.
- Estamos indo para Granor Mansion, mais precisamente. Talvez você tenha ouvido a respeito.
- Mais uma dessas casas mal-assombradas... Quanta idiotice!
- Mas é disso que as pessoas gostam, Beth. Idiotices. Por essa razão, meu novo livro se passará lá. Tentarei descobrir a história da casa e transformá-la em algo com personagens e fatos exagerados. Meus leitores amam isso.


- Chegamos.
- Já vamos descer?
- Espere. Antes de entrar, devo esclarecer algumas coisas importantes. Eu nunca acreditei em eventos sobrenaturais e sinceramente, detestava os idiotas que acreditavam em espíritos presos na terra ou coisas similares. Mas as coisas mudaram... Tudo que posso dizer é que não me arriscaria a quebrar nenhuma regra entre as leis do mundo pós-morte... Pelo menos não aqui, não agora. Está me entendendo?
- Quais regras?
- Pelo que sei, há duas regras para ocupar a casa: não ande sozinha após as 23h, e nunca, por hipótese alguma, deixe o território da mansão Granor antes do período de insulação.
- Insulação? Que porcaria é essa, Bianca?! Está me dizendo que uma casa velha e abandonada vai ditar as regras para mim a partir de agora?! Isso é completamente ridículo.
- Beth, isso não é brincadeira. Ou você concorda comigo, ou terei que deixá-la em uma clínica. Imagino que em seu estado de espírito, ficar ao lado de uma velha amiga é bem melhor do que enfrentar dezenas de consultas com psiquiatras e ser dopada com calmantes baratos.
- Droga! - suspirou Elizabeth. - Vamos logo.


As pequenas gotas de chuva caiam sobre o ombro de Beth enquanto ela caminhava pela entrada da casa. Não podia negar que, apesar de antiga, a mansão era realmente atraente. Chegando à sala de estar, encontrou um ambiente ainda mais chamativo. Ao contrário do que esperava, a sala estava completamente limpa, e dispunha de cores claras e minimalistas.


- Não é como esperei que fosse...
- Surpreendente, não?! Provavelmente você imaginou uma sala vermelha ou marrom, com um piano no centro, luz de velas, quadros estranhos e poeira. Isso não é um estereótipo de casinhas de fantasmas, amiga. Isso aqui é real!
-  Pode me contar a história da casa? Aconteceu algo realmente estranho que faça-a acreditar que esse lugar não é mais uma casa de folhetos turísticos?
- Sim... Mas eu não sei como contar.
- Tente.
- Sinceramente, eu não sei direito. Pretendia ficar aqui por um tempo e descobrir mais coisas. Prometo que quando minha 'investigação' estiver pronta, contarei-lhe tudo.
- OK, 'Sherlock Holmes'. Já que não posso estar à sete palmos do chão, por que não aproveitar uma bela mansão assombrada? - Beth soltou uma risada sarcástica.
- Vou preparar um chá para você. Ainda parece tensa.

Bianca caminhou pelo estreito corredor e entrou de porta em porta, buscando a cozinha. Era engraçado vê-la correr com uma caixa de ervas em mãos à procura de um fogão. Beth soltava pequenas risadas, enquanto girava o pescoço e explorava minuciosamente a sala com o olhar.

Diante da janela, olhava as gotas de chuva caindo agressivamente sobre a janela. O tempo, sem dúvidas, iria piorar. Como já esperava, sua dor de cabeça começou a manifestar.


Nos momentos de silêncio, gostava de ponderar sobre sua vida e sobre suas decisões. Mas ali, naquele minuto, tudo o que conseguia pensar era no sofrimento que deveria ter morrido junto a ela. Estar viva significava lidar com os problemas que ela tanto tentava fugir. Suas lembranças eram mais que dolorosas, torturantes. "O homem que prometeu me amar eternamente foi o mesmo que me trocou por uma vadia qualquer. Sou apenas mais uma página suja e rasgada no livro de histórias dele." - pensava ela.

Talvez seja melhor aceitar o chá.

                                                       


Bianca era uma mulher bastante precavida. Havia trago alimentos suficientes para alimentar um país dentro de seu carro.
- A geladeira está funcionando, Beth. Não será tão difícil sobreviver aqui.
- Temos energia elétrica?!
- Sim. Em algum lugar da casa, deve haver algum gerador ou coisa do tipo. Genial, não acha?
- Uhum...
- Poderia colocar um sorriso no rosto? Desde que acordou, insiste em fechar a cara. Isso não vai facilitar as coisas, Beth.
- Se eu sorrir meus problemas desaparecem?

A pergunta pairou no ar.

- Iremos receber visitas.
- Oh, sério? Posso sentar-me na sala e ser uma boa garota. - Elizabeth irritava muito com seu humor negro e sarcasmo. Nunca havia sido tão difícil lidar com alguém como estava sendo difícil para Bianca.
- Por favor, pare de me culpar pelos seus problemas! Dei-lhe uma chance de continuar nesse mundo enquanto muitos outros não tiveram essa chance. Então pare de ser amarga e agradeça por ainda estar viva. Não acha que seria uma humilhação horrenda arrancar a própria vida simplesmente porque depende de homem?!
- Eu não...
- OK. Então prove. Agradeça por estar aqui.

                                                        

Lá fora, a chuva demonstrava-se cada vez mais agressiva.
Já em seu quarto, Beth aquecia-se pelo calor da lareira enquanto se preparava para dormir. Já eram 22h47, e a voz de Bianca lembrando-a das regras da casa pairava sobre sua cabeça.


E então, o estrondo do raio afastou todos os pensamentos de sua cabeça. A energia havia acabado.

- Era só o que me faltava - suspirou.


Beth foi até a lareira para retirar gravetos secos. Haviam velas espalhadas por todo o quarto - apesar da maioria delas serem decorativas. Na esperança de iluminar o quarto, puxou um dos primeiros gravetos crepitantes. Parecia que algo os segurava com força. Apoiando os pés nas bordas da lareira, fez um grande esforço até o pequeno pedaço de madeira ceder e se desprender dos demais.

Ao se levantar, levou o fogo até uma das velas ao lado de sua cama e acendeu-a.


Após ter acendido a vela, assoprou o restante do fogo que queimava o graveto.
Um grito atravessou a sala.
De relance, Beth virou-se novamente pela lareira e viu algo tentar sair do fogo. Arrastando-se, uma mulher desesperada agarrava no tapete e gritava ao sentir o ardor da chama.

- Que p*rra é essa?


Beth atirou-se contra a porta, tentando fugir do quarto. Trancada!
O espírito daquela mulher parecia tomar maior tamanho a cada segundo ali dentro.
Espancando a porta, gritava por socorro - até que finalmente a madeira podre da porta não suportou e se rachou. Escapando por pouco do quarto, Beth desmaiou.
                                                             
- Eu não quero ficar aqui. - insistia.
- Você TEM que ficar. Se for embora, sabe-se lá o que vai acontecer.
- Estou falando sério! Tinha alguém no meu quarto ontem à noite. Era uma mulher! Ela gritava, corria, saia da lareira e... Aff, que droga!
- Beth, eu sinto muito por ter trago você. Isso realmente não é algo que você possa suportar. Sinceramente você tem razão em querer ir para casa agora.

- Tá tudo bem... Mas por favor, termine logo essa maldita pesquisa para irmos embora.
- OK. - Bianca riu.
- O quê?
- Isso é tão engraçado. Fiquei praticamente a noite toda esperando por algum sinal de assombração, maldição ou qualquer coisa que me dê uma história... Mas eles aparecem justamente para você.

Beth esboçou um sorriso.

- Acho melhor se preparar... Meus amigos vão chegar essa manhã.
- Que amigos são esses?
- Eu convidei alguns amigos que possuem um mesmo interesse pela casa. Eles pretendem me ajudar a analisar cada centímetro dessa casa e colaborar com o livro. Se tudo ocorrer bem, a história se tornará meu best-seller e eu ficarei rica logo.

                                                          
"Minha vida é tão irônica... Enquanto eu luto para sair dessa casa, outros entram como se estivessem fazendo check-in em algum hotel." - O pensamento de Beth continuava fluindo como de costume.